Coletivo Aspas Duplas, de Osasco, destaca-se no cenário editorial internacional ao reunir escritores de diferentes países e promover a valorização da Língua Portuguesa.
O recente episódio envolvendo o descarte de livros da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, em Osasco, acendeu um alerta sobre o cuidado com o patrimônio literário na cidade. Em contraste direto com essa realidade, uma iniciativa nascida no próprio município segue na direção oposta: preservar, valorizar e expandir o alcance da literatura. Trata-se do Coletivo Aspas Duplas, que vem se consolidando no cenário editorial internacional ao reunir escritores de diferentes países e promover a Língua Portuguesa como patrimônio cultural comum.
O que começou como um movimento literário independente em Osasco, São Paulo, hoje atravessa fronteiras. Com presença em países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o coletivo atua como uma ponte entre culturas, conectando autores do Brasil, Portugal, Angola e Moçambique em projetos editoriais colaborativos. Mais do que publicar livros, a iniciativa contribui para a manutenção, difusão e fortalecimento da língua portuguesa em suas múltiplas expressões, respeitando sotaques, regionalismos e diferentes vivências.
As coletâneas organizadas pelo grupo reúnem vozes diversas que refletem a riqueza cultural dos países lusófonos. Entre os destaques está o escritor moçambicano Ismael Miquidade, cuja produção transita entre o fotojornalismo, a poesia e a crônica, explorando com olhar sensível os contrastes da vida urbana. Também de Moçambique, Valério Maúnde se destaca por sua atuação como professor, revisor e pesquisador, unindo literatura e ensino em sua trajetória.
Representando Angola, o jovem Kim Zunguila traz uma abordagem contemporânea que integra literatura, linguística e tecnologia. Já de Portugal, nomes como Beatriz Ramos Pinheiro (Loralai) e Romãzinha Maria acrescentam sensibilidade e profundidade às coletâneas, explorando temas como identidade, emoções e afetividade.
A pluralidade do coletivo também ultrapassa a lusofonia. O italiano Alberto Arecchi e o sérvio Miodrag Kojadinović ampliam ainda mais o alcance da iniciativa, inserindo a literatura em língua portuguesa em um contexto global de trocas culturais e experimentações literárias.
Diante desse cenário, o contraste é inevitável. Enquanto uma ação local levanta questionamentos sobre o destino de livros considerados inutilizáveis, o Coletivo Aspas Duplas reafirma, na prática, o valor simbólico, cultural e transformador da literatura. A iniciativa mostra que Osasco não é apenas palco de controvérsias, mas também berço de projetos que conectam o mundo por meio das palavras.
Em tempos de desafios para o mercado editorial e para as políticas de incentivo à leitura, o exemplo do coletivo evidencia que livros não são descartáveis. São pontes, registros de memória e ferramentas de transformação. E, partindo de Osasco, continuam a encontrar novos leitores, novas vozes e novos caminhos ao redor do mundo.
Sérgio Machado 41996270123 [email protected]
