Damares Alves pediu que a Polícia Federal investigue o filme Cuties, da Netflix, por suposta “pornografia infantil”. Em 17 de setembro, um ofício assinado pelo ouvidor nacional de Direitos Humanos, Fernando César Pereira, foi enviado à PF.

Cuties foi premiado no Festival de Sundance e indicado a melhor filme no Festival de Berlim. Em linha oposta a Damares, a Netflix afirmou que o filme é um “comentário social contra a sexualização de crianças”.

Diretora

Nome por trás do filme “Lindinhas” (“Cuties”), acusado de sexualizar crianças e alvo da fúria da ministra Damares Alves, a diretora francesa Maïmouna Doucouré contou que o longa iniciou um debate, embora não seja o debate que ela pretendia.

Em artigo escrito para o “Washington Post”, Doucouré conta que, certo dia, estava em um evento comunitário em Paris quando um grupo de garotas entrou no palco vestidas e dançando de uma forma muito sensual.

Chocada com a cena, a diretora iniciou uma pesquisa de campo, entrevistando mais de 100 meninas de 10 e 11 anos. Em sua investigação, ela percebeu que as garotas observavam que a popularidade de uma mulher no Instagram ou no Tik Tok estava intrinsicamente ligada a postagens sensuais. Quanto mais sexy, mais curtidas. Assim sendo, estas meninas estariam reproduzindo tal comportamento.

“O problema, claro, é que elas ainda não são mulheres e não percebem o que estão fazendo. Elas constroem sua autoestima com base nas curtidas nas redes sociais e no número de seguidores que possuem”, diz a cineasta em seu texto.

Em outro trecho, Doucouré reforça o fato de que não há nudez de crianças em “Lindinhas”. Ela ressalta que o único momento do filme em que aparece uma pessoa nua é quando as protagonistas assistem a um vídeo num celular, que mostra os seios de uma atriz maior de 18 anos.

“Eu queria que os adultos passassem 96 minutos vendo o mundo pelos olhos de uma menina de 11 anos, que vive 24 horas por dia. Essas cenas podem ser difíceis de assistir, mas não são menos verdadeiras como resultado”, argumenta a diretora.

Para Doucouré, as cenas apontadas como desconfortáveis assim devem ser, pois representam “o quão desconfortável é conversar com uma garota de 11 anos”. Ela também reforça que as filmagens foram acompanhadas por uma espécie de conselheiro tutelar e o longa teve autorização por parte de todas as instâncias do governo da França.

De origem senegalesa, mas radicada em Paris, a diretora tem uma trajetória particular parecida com a de Amy, protagonista de “Lindinhas” interpretada pela talentosa Fathia Youssouf. Assim como a personagem, Doucouré teve de se equilibrar em meio ao choque de culturas vivenciado ainda muito jovem. E que também afirma ter tentado levar para a tela, em seu filme.

“Este filme é minha própria história. Durante toda a minha vida, fiz malabarismos com duas culturas: a senegalesa e a francesa. Como resultado, as pessoas frequentemente me perguntam sobre a opressão das mulheres nas sociedades mais tradicionais. E eu sempre devolvo: mas a objetificação dos corpos das mulheres na Europa Ocidental e nos Estados Unidos não é outro tipo de opressão? Quando as meninas se sentem tão julgadas em uma idade tão jovem, quanta liberdade elas realmente terão na vida?”, provoca a diretora em seu artigo.

Ao fim de seu texto, Maïmouna Doucouré ratifica sua intenção de levantar um debate sobre a sexualização precoce de crianças: “Espero sinceramente que essa conversa não se torne tão difícil a ponto de também ficar presa na atual cultura do cancelamento”.